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Pratos do Dia

domingo, 26 de agosto de 2007

Esperando pelo happy-end

Hoje acordei otimista! Na minha mania de rotular a tudo e a todos, otimismo sempre vinha acompanhado de “leniente”, “desinformado” e “bobo”. Com a experiência desta manhã percebi que posso retirar “desinformado”. Estou mais bobo e mais leniente, e nada será capaz de acabar com este sentimento. Nada.

Abri o Estadão e li que ministros do supremo – que julgam os 40 do mensalão – suspeitam dos reais motivos que levariam Eros Grau a votar contra a investigação. Algo como “uma troca com o governo”. Dei de ombros e sorri. Aceitei que isto faz parte do jogo da democracia. Fiquei feliz e jurei que o sol sorriu para mim. Logo abaixo, a notícia: “Anac sabia do risco de avião ‘varar’ pista de Congonhas”; “diretora da Anac Denise Abreu (...) acusada de ter entregue à Justiça (...) um documento sem validade a favor da liberação da pista de Congonhas.” Aceitei que pessoas podem morrer de n maneiras, explodir dentro de um avião é uma delas. É a democracia dos céus. Pássaros azuis de filmes da Disney adentraram minha sala e me fizeram chorar de alegria.

Na página seguinte tomei conhecimento da mais-nova-invasão-à-universidade-pública-da-última-semana, esta na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. A ação foi arquitetada pela UNE em parceria – pasmem os pessimistas – com o MST, seguindo a “Jornada Nacional de Lutas pela Educação”, presente em outros estados. Parei de ler quando o jornal explica que, no âmbito do Estado de Direito, ocupação de edifícios públicos, qualquer que seja a justificativa, configura ilícito no Código Penal. Achei antidemocrático esse tal Estado aí. É público, oras! Gostei da parte que dizia que o site do PT acusava a PM de ter sido truculenta, apesar de o texto dizer que as autoridades estaduais tiveram o cuidado de chamar uma equipe do IML que não constatou agressão. Meu otimismo continuava intacto. Estudantes unidos ao MST me parecem algo normal. Não vejo ligação entre nossos governantes, que repassam verbas aos invasores do MST e uma suposta doutrinação nas escolas. Jurei que a brisa que entrava em meu quarto me dava bom dia. Outra lágrima caiu.

Tomado pela graça do pensamento positivo, cogitei que nossos jornalistas eram pouco nacionalistas e um tanto quanto radicais. Resolvi fechar os jornais. Não gosto quando os fatos rebatem minhas convicções. Não tive sorte. Na página de trás do caderno principal do Valor li: “Estratégia para 2010 marcará Congresso do PT”. A sigla “PT” abalou meus novos ideais por duas horas. Vomitei e me recompus. Na reportagem, li o quadro que resume as resoluções das principais tendências dentro do partido. Especificava o Brasil que cada uma quer, suas concepções quanto ao PT e – pasmem os céticos – quanto ao socialismo a ser implantado no país. “O socialismo ganha atualidade contra o neoliberalismo” não me agitou. “Propriedade pública dos meios de produção” pareceu esquizofrenia minha. “A luta anti-capitalista está muito enfraquecida” me alegrou pela pluralidade. Fechei o caderno e chorei como uma criança.

Passada a emoção, por um instante pensei em me converter ao budismo, uma vez que o “caminho do meio”, associado ao “pensamento positivo”, já faziam parte do meu ser. Desisti ao perceber que adotar uma religião seria tomar partido, uma inconsistência com minha nova moral. Fiquei zonzo quando conclui que, se ser moderado é o melhor a ser feito, porque então eu não poderia ser moderadamente moderado? Se o caminho do meio é o correto, não seria errado ser moderado sempre? O “sempre” me parecia muito radical. Retomei o equilíbrio quando engoli que minhas idéias soavam como sofismas. Voltei mais otimista do que nunca. Voltou a ser fácil viver.

Um comentário:

Kira Rosenbaum disse...

Muito lírico o seu texto! Não fosse os desvio da objetividade a favor de uma retorica cativante te chamaria de randiano pelas conclusões!