
Muito tem-se discutido sobre a atual crise de liquidez e suas possíveis consequências para a economia brasileira. A opinião corrente -- principalmente as emitidas pelas autoridades do governo -- é que a economia brasileira está blindada contra a eventual crise. O argumento dado é algo como: O Brasil foi responsável do lado macroeconomico -- alguns nos comparam até com formigas se preparando para o inverno -- controlaram a inflação, fizeram superávit primário, acumularam reservas. Isso possibilitou uma redução do risco país e faria o Brasil não sofrer as consequências da atual crise.
Algumas opiniões divergentes têm aparecido, principalmente no sentido de que a crise pode se refletir na economia brasileira, mas de forma mais amena. A melhor condição da economia brasileira, no entanto, é algo discutível e possivelmente conjuntural.
A melhora do cenário macroeconomico brasileiro é circunstancial e causada pela liquidez internacional. O abundante fluxo de dinheiro para o país, seja pelo saldo comercial seja pelo investimento financeiro, é consequência da liquidez internacional. A alta nos preços das comodities possibilitou uma melhora no saldo comercial expressiva, no entanto, esses preços já demonstram sinais de reversão após o inicio da atual crise. O bom desempenho do mercado financeiro, em especial do mercado de ações pode ser explicado pela grande entrada de recursos estrangeiros. A atual instabilidade é causada pela fuga desses.
Como consequência da entrada de recursos no país, a apreciação do real foi inevitável. Isso possibilitou que a inflação fosse controlada e permitiu uma redução continuada das taxas de juros no país. Com o aumento da demanda interna, impulsionada pela maior disponibilidade de crédito -- principalmente imobiliário e de carros -- e com o aumento da demanda externa -- exportação de comodities principalmente -- ocorreu um aumento do PIB. Desta forma, mesmo com uma piora no uso dos recurso públicos, a arrecadação de impostos adicional possibilitou uma melhora aparente nas contas públicas.
Todo esse cenário favorável para o Brasil tem como causa primária a situação externa que vigorava até poucas semanas. Assim, afirmar que o Brasil está protegido da crise por apresentar uma conjuntura melhor é ilusório. Confundem-se as causas com as consequências. Um piora no cenário internacional poderá, facilmente, dissolver toda essa maquiagem que foi colocada por cima da macroeconomia brasileira.
2 comentários:
Já haviamos discutido sobre isso, há muito tempo atrás (lembra?!). Também tinha esta idéia...será que é possível mensurar isso? Quanto do nosso crescimento vem da alta liquidez externa? As vias diretas são tanto empresas tomando dívidas mais baratas quanto investimentos diretos certo? Então deveríamos tentar discriminar tanto o dinheiro que entra porque o país parece mais seguro - o que, em parte, é mérito deste governo - quanto aquele que entra porque os juros são altos - o que, em parte, é "culpa" deste governo. Que fato fez este capital entrar no país? Quanto teria entrado se o juros mundial não fosse tão baixo e o nosso tão alto? Seria algo por aí!
Nada contra o sucesso deste governo, muito menos a favor, já que ele toma para sí todos os méritos de não ter feito nada! Ok, muito ajuda o governo que nada faz, mas muito mais ajuda o governo que nada faz E desmonta os desgovernos que já fizeram antes!
Bom texto! É incrível que alguns ainda possuem a ilusão de que não fazendo nada tudo continuará bem...É verdade que o Brasil fez as reformas macro necessárias porém as reformas micros não foram realizadas e sem este tipo de reforma talvez até conseguiremos sobreviver a atual crise porém não conseguiremos fazer com que a economia se desenvolva e cresça como o desejado pela sociedade brasileira.
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