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Atualizada em 31/10.



Pratos do Dia

sábado, 17 de novembro de 2007

O circo dos empreendedores

Há alguns anos resolvi abrir uma empresa no Brasil junto a alguns sócios. Eu, Loyola y Loyola, junto a Pimenta Bueno e Catarina Rosa. Conhecemo-nos através de um amigo em comum. Nossa idéia era explorar produtos tipicamente brasileiros no exterior. Seguindo a teoria das vantagens comparativas, percebemos o grande negócio que seria vender jogadores de futebol, corrupção e bundas aos países desenvolvidos, onde os jogadores não jogam, a corrupção não vinga e as bundas não se arredondam como cá.



Catarina Rosa ficou encarregada de comprar jovens jogadores nordestinos. Em troca oferecemos a ilusão de um futuro promissor, migalha aparentemente superior à Bolsa Família. Todos aceitaram. Pimenta Bueno, profundo conhecedor de nossa história e seus detalhes detestáveis, encarregou-se da corrupção. A estratégia foi desenvolver produtos como cuecas com compartimentos para o transporte de dólares e abrir franquias do Banco Rural no exterior. Encarreguei-me das bundas. Nada além de exportar mulatas aos países onde são mais escassas e, conseqüentemente, mais caras.


Tínhamos tudo para fazer sucesso e gerar “emprego e renda” aos mais necessitados – no caso das mulatas os necessitados estavam na outra ponta. Demoramos 152 dias para abrir nosso negócio, mais de cinco meses. Senti-me mais brasileiro quando descobri que, se fossemos do Suriname, demoraríamos 694 dias. Ha! O Brasil ainda não é o Suriname! Irritei-me quando descobri que se fossemos australianos a demora seria de apenas dois dias. Talvez lá não seriamos tão brasileiros, povo que não desiste nunca.


Passada esta fase, calculei quanto tempo levamos para administrar e pagar tributos. Em Cingapura, país de primeira linha (não é verdade?!), leva-se 2 dias. Aqui, incríveis 2600 horas por ano. Não contive a risada, e logo em seguida o choro. Senti-me ridículo. Todo empreendedor sente-se ridículo por aqui.


Infelizmente, ao final do primeiro ano, minha sócia Catarina Rosa morreu. Para curar alguns ferimentos aceitou passar um unto amarelado, crendice de uma cidade do sertão nordestino. Brotaram-lhe edemas negros por todo o corpo, que não resistiu. Como manda a lei, notificamos as autoridades de todas as mudanças societárias. Por razão desconhecida, tanto a Receita Federal quanto a Secretaria da Fazenda não atualizaram os cadastros. A solução, recomendada por um servidor, foi incluir e excluir – novamente – um a um os sócios que entraram e saíram da empresa. A inclusão e a exclusão de um sócio tomam semanas até serem processadas pelo Fisco. Aceitei o nariz de palhaço.


Ao final deste processo fomos informados de que devíamos à Receita. Havíamos quitado alguns impostos e decidido pagá-los através de um plano de refinanciamento da própria Receita. Ao final da quitação fomos considerados inadimplentes. Vai saber! A Receita não explicou o porquê e demorou seis anos para divulgar o valor da “dívida” – que não existia. Com isto, não foi possível obter financiamentos. Ainda era pouco.


A gota d’água veio enquanto tentávamos importar terrorismo político da Inglaterra. Nossos “V de Vingança”. O grande problema, vejam só, estava na cor da caneta que assinava a fatura da importação. Digam-me, é possível levar a sério um país que tem orientações da aduana inclusive para a cor da caneta que assina a documentação? A quem interessa todas esta burocracia? A quem manda neste país, à burocratada, aos funças, aos “cara-crachá-cara-crachá” que fazem de seu trabalho um hobbie. Esta gente que teme as privatizações, a meritocracia, a produtividade e inclusive a ladainha do “choque de gestão”. Não fechamos a empresa com medo dos anos que isto tomaria. Preferimos explodi-la com os funcionários dentro e fugir do mapa. Fomos dados como mortos. Escrevo de um paraíso fiscal com este pseudônimo ridículo.


PS: os dados são do Banco Mundial (relatório Doing Business) e a cor da caneta deve ser azul. Nossos “V de Vingança” ainda estão por aí. Aguardem.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Pouco mais brasileiro

Um conhecido me mandou um e-mail dizendo que meu último texto era tosco. Ele usou exatamente este adjetivo – que já virou gíria no paulistanês. Tosco, segundo ele, porque é de só mais um dos vários “reaças de net que resolveram não curtir o Brasil”. Não gostei. Primeiramente, não gostei pela obviedade, dessa nova mania de chamar de reaça quem não engole fácil o pacote incluso em “Brasil”. Ou mesmo quem não cai no "fui traídoPOR QUEM?mas não sei de nadaMENTIRA ou INCOMPETÊNCIA? Pior é o restolho daqueles que aceitam esta balela. Um lulismo-malufista, um rouba mas faz para os pobres.

Também não gostei do “resolveram”. Não, não resolvi assim, PUM, do nada. Estudar e entender o que está por trás do atraso brasileiro deixariam qualquer um assim. Bom, pelo menos os de boa índole e os pensadores de boa estirpe, comprometidos com a razão e céticos a respeito da doutrinação de seus professores colegiais de história e geografia!

Agora, para mostrar quanto gosto deste país, quão brasileiro eu sou, e quanto seu povo é merecedor de tudo (!) o que obteve até hoje – em termos de cultura, desenvolvimento, riquezas etc. – repassarei alguns números presentes nas pesquisas do livro “A Cabeça do Brasileiro”, de Alberto Carlos Almeida, junto com minhas (!) respostas.

Segundo a pesquisa, 54% dos entrevistados acham certo alguém condenado por estupro ser estuprado na cadeia. A mesma percentagem acredita ser correto a polícia espancar presos para que eles confessem crimes. Olha só! Somos maioria! Eu também sou a favor deste tipo de brutalidade. Humanismo passou longe da minha formação. Respeito ao ser humano, apesar de criminoso – ainda mais os de pior qualidade – não é algo que se ensina aos jovens deste país. Pelo menos não à maioria daqueles que responderam à pesquisa. E eu gosto de fazer parte da maioria. Ensinaram-me a gostar da escolha da massa. País de primeira! Educação de primeira! Sinto-me mais brasileiro!

Não para por aí. É o Estado de Direito sendo tomado pela Lei de talião. É o “ pega um pega geral... também vai pegar você". Para 52% dos mesmos pesquisados é correto policiais matarem assaltantes e ladrões depois de prendê-los. Reze para não te confundirem com um deles se não é saco na cabeça, mermão! Caveira!

Em que século estamos?!

Minha ironia não vem de uma “consciência social” onguista-maconheira-uspiana. Respeito à vida é base do pensamento liberal, democrático. Desrespeitá-la é desrespeitar a liberdade individual. Criminosos não deixam de ser indivíduos, de ter seus direitos. E isto passa longe da idéia de aliviar penas, Síndrome de Estocolmo ou ter compaixão para com o bandido. Muito menos entender o crime como subproduto de uma suposta exploração da "Zelite" à la ciência social panfletária do século 19. Muito longe disso. Lugar de criminoso continua sendo na cadeia, com todas as privações que suas penas demandam. Porém matá-los para uma “sociedade melhor” anda de mãos dadas com nazismo e a idéia de uma raça pura, ariana, melhor. Um maquiavelismo assustador de uma sociedade que não merece respeito, apenas o sorriso torto e amarelado da ironia.

Enfim, um viva ao Brasil lulista-malufista, nazista-maquiavélico das massas! Com vinho de qualidade duvidosa da Serra Gaúcha. Produto nacional aos nacionalistas!